Sou Alice Drummond, repórter e analista focada nas intersecções entre o poder político e o mundo corporativo para o D-Taimes. Minha missão é investigar como as decisões tomadas em Brasília e nos grandes centros financeiros impactam o dia a dia do cidadão comum. Hoje, a lente se volta para um momento de rara franqueza e ironia no palco político nacional.
Em plena inauguração do escritório da ApexBrasil em Cuiabá, o Ministro da Agricultura, Carlos Fávaro (PSD), não conseguiu conter uma gargalhada ao ser questionado sobre a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Com um sorriso no rosto, Fávaro disparou: “Ele descumpriu as regras do uso da tornozeleira, é inquestionável isso. E como consequência: se ele não sabe usar a tornozeleira, tem que ficar preso”.
A declaração é emblemática de várias dinâmicas que moldam o Brasil contemporâneo. Primeiro, a volubilidade das alianças políticas: Fávaro, que em 2020 capitalizou a imagem do “Mito” para vencer uma eleição suplementar, “virou a casaca” em 2022, tornando-se coordenador da campanha que levou Lula (PT) à presidência, derrotando o próprio Bolsonaro. Esse movimento de pêndulo entre espectros políticos evidencia a fluidez das conveniências e a busca incessante por espaço de poder, muitas vezes descolada de ideologias fixas.
A prisão de Bolsonaro, decretada após perícia da Polícia Federal constatar a violação de sua tornozeleira eletrônica com uma fonte de calor compatível com ferro de solda — um ato que o próprio ex-presidente admitiu como “curiosidade” — expõe a tensão entre o poder executivo e o judiciário. O Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, ao fundamentar a decisão, chegou a citar uma vigília convocada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como um possível indício de tentativa de fuga.
Fávaro, por sua vez, foi categórico ao ser questionado sobre possíveis mobilizações de caminhoneiros em protesto à prisão: “Eu não vou fazer nada. A decisão judicial se cumpre.” Essa postura, de reafirmação da legalidade e da soberania das instituições, é um contraponto direto à retórica de contestação que marcou parte do último governo. O recado de Fávaro, de que o Brasil possui instituições “muito bem estruturadas” e que o direito à defesa deve ser exercido nos trâmites legais, reforça a narrativa de estabilidade e respeito ao Estado Democrático de Direito.
No âmbito da política mato-grossense, o ministro aproveitou para expressar o entusiasmo do PSD com a pré-candidatura da médica Natasha Slhessarenko ao Governo do estado, prometendo uma “excelente opção” para o eleitorado local. Além disso, a porta continua aberta para o senador Jayme Campos (UB), demonstrando a articulação política em curso para as próximas eleições, mesmo em meio à turbulência nacional.
Este episódio, mais do que uma simples notícia, é um termômetro das complexas relações de poder no Brasil. A aparente leveza com que um ministro da ativa comenta a prisão de um ex-chefe de Estado reflete não apenas uma mudança de guarda, mas também a consolidação de uma era onde a submissão à lei, em tese, deve prevalecer, independentemente do cargo ocupado. O D-Taimes seguirá investigando as nuances e os impactos dessas dinâmicas no cenário político e social do país.
