A Faca de Dois Gumes do ‘Não-Golpe’: Mourão e a Redefinição da Influência Militar na Política Nacional
Por Alice Drummond, Repórter e Analista do D-Taimes
Brasília, 26 de novembro de 2025 — Em um cenário político ainda marcado pelas cicatrizes e especulações de rupturas democráticas, a voz do senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS) ecoou com uma franqueza brutal. Em entrevista à CNN, Mourão disparou: “Golpe não tem plano. O golpe dá e faz, e golpe tem bala e defunto. Essa é a realidade.” Uma declaração que, para além da literalidade, desnuda a natureza violenta de qualquer tentativa de subversão institucional, mas que, sob a ótica da análise crítica, merece uma dissecação mais profunda sobre as entrelinhas do poder e da accountability no Brasil.
A fala de Mourão, ex-vice-presidente e general da reserva, não é apenas um retrato da crueza de um “não-golpe”, mas também um reflexo da intrincada relação entre as esferas política e militar. Ao ser confrontado com a ideia de uma “mea culpa” das Forças Armadas ou a identificação de erros governamentais, o senador optou por uma abordagem mais elíptica. Reconheceu a derrota eleitoral e admitiu a existência de questionamentos sobre a legalidade do processo e a credibilidade das urnas. Contudo, em vez de aprofundar nas tensões que levaram a tais questionamentos, ele direcionou o foco para uma suposta “falha na comunicação” dos aspectos positivos da gestão, uma narrativa que sutilmente desvia a atenção das complexas dinâmicas políticas e ideológicas que culminaram na polarização pós-eleitoral.
Um ponto central da argumentação de Mourão reside na defesa da participação de militares da reserva em cargos governamentais. Para ele, as Forças Armadas são um “repositório de profissionais altamente especializados”, cuja formação é um investimento integral da nação. “Deixar de aproveitar o conhecimento que essas pessoas adquirem ao longo de 35, 40 anos de serviço à pátria é uma bobagem muito grande”, argumentou. Essa perspectiva, embora aparente pragmatismo e eficiência na gestão pública, levanta uma questão fundamental para o Estado Democrático de Direito: até que ponto a expertise técnica militar deve se sobrepor ou se mesclar com as prerrogativas civis da governança? A indistinção entre as duas esferas pode obscurecer a necessária separação de poderes e as responsabilidades inerentes a cada papel, impactando diretamente o dia a dia do cidadão comum.
Ainda na arena da accountability, Mourão abordou a delicada questão da possível perda de patentes em julgamentos no Superior Tribunal Militar (STM). Ele salientou a complexidade do estatuto militar, que prevê a perda de postos e patentes em casos de “crimes contra a honra e o pundonor militar”, alicerçados em valores como lealdade, probidade e integridade. É um lembrete de que, mesmo em um contexto de questionamentos democráticos, as Forças Armadas operam sob um regime jurídico próprio, cujas sanções são distintas das civis. Essa dualidade, no entanto, pode gerar um vácuo de percepção pública sobre a responsabilização de militares envolvidos em crises institucionais, especialmente quando as discussões permeiam o “golpe” e a “defesa da democracia”.
Como repórter e analista do D-Taimes, minha missão é descomplicar o poder sem abrir mão da análise crítica. A fala de Hamilton Mourão é um convite a olhar além das manchetes, para as complexas teias que conectam o poder político e as instituições militares. Suas palavras, ao mesmo tempo que buscam demarcar a linha entre a retórica e a realidade violenta de um golpe, reforçam a urgência de um debate transparente sobre a presença e a influência dos militares na política, e a clareza sobre os mecanismos de responsabilização em uma democracia que, apesar dos desafios, busca consolidar-se.
